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COMPLEXIDADE E PRÁTICA NO SERVIÇO SOCIAL: SENTIDO E VALIDADE

  • Autor: Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues

O texto traz uma breve reflexão sobre o sentido do Serviço Social, o modo de pensá-lo e de fazê-lo tendo por referência a teoria da complexidade. Procurando articular conhecimento e prática de Serviço Social, sugere o amadurecimento intelectual profissional reafirmado na formação de um espírito crítico e na biodiversidade cultural.

- I -

Quais indagações nos unem ou nos distanciam quando nos dispomos a refletir sobre nossa prática profissional? Quais expectativas nutrem nossas discussões quando aceitamos expor nossos modos de pensar, de agir e os conhecimentos que devemos reunir neste exercício? Quais prospectivas nos estimulam quando imaginamos esta profissão no futuro?

Não são raras as vezes em que alunos de graduação, profissionais, pós-graduandos, sugerem a tematização do Serviço Social priorizando o modo de pensá-lo e o modo de fazê-lo, numa palavra, o modo de seu entendimento. São também estas questões que constituem matéria freqüente nas reflexões e investigações realizadas pelo Nemess complex, Núcleo de pesquisa que coordeno na Puc-sp.

Poderíamos supor que o entendimento a respeito de uma profissão é aquele que se torna socialmente por ela instituído. Este entendimento, uma vez estabelecido, pode compor um conjunto de "axiomas" aceitos como indiscutíveis. Entretanto, é impossível ignorar e cercear a manifestação de diferentes visões de mundo, práticas e expectativas profissionais. Estes aspectos são, aliás, responsáveis não só pela acumulação diversificada de conhecimentos, fruto do gradativo amadurecimento intelectual (singular) e profissional (coletivo), como também por uma história e cultura plurais. Nesta ótica, o instituído não pode manter-se enrijecido.

A pluralidade, fruto da conjugação de mentalidades abertas dispostas a acolher diferentes contribuições e modos de pensar, opõe-se, certamente, a formas de coerção resultantes de toda sorte de dominação ou supremacia , sejam elas ideopolíticas, de conhecimentos e de ética. Esta cultura plural envolve forças de conjunção e de disjunção. Estas forças estão presentes no Serviço Social (e em quaisquer outras disciplinas) e, isto significa, na produção de seus conhecimentos, nas práticas que realiza assim como no processo de formação de seus profissionais. Em tempos de disjunção, em que com muita dificuldade nos dispomos ao aprendizado da religação dos saberes, busca-se uma redefinição do sujeito, do educador, do intelectual não como solucionador de problemas mas como um caçador, um explorador de culturas polifônicas, da arte de organizar seu próprio pensamento relacionando informação e conhecimento, conjunto e contexto. O que importa é interrogar o saber e a si mesmo e tentar espantar certa apatia de pensamento, de criação e de participação.

 - II -

Segundo esta perspectiva plural, diferentes contribuições podem animar o reexame ou uma revisão possível dos conhecimentos e das práticas do Serviço Social. O ponto de sustentação da proposta que trazemos é a articulação (reliance) entre conhecimentos e práticas, tomando por referência a teoria da complexidade desenvolvida por Edgar Morin (e desdobrada por diferentes pensadores), essencial para o estabelecimento desta relação.

1. A prática profissional está imersa na complexidade da realidade: escapa à tendência de tratá-la como se fora uma obviedade e de compreendê-la sob uma única direção teórico-filosófica. A compreensão da realidade requer diferentes níveis de percepção que, apesar de tecerem correspondência entre si, não nos conduzem a uma teoria única, reconhecendo-se, assim, "a impossibilidade de (admitir ou estabelecer) uma teoria completa, fechada em si mesma" (B.Nicolescu,1999,p.52). A prática profissional traduz-se por um conjunto de ações, na complexidade das relações micro e macrossocial. Há uma tensão e uma solidariedade oculta entre os planos micro e macrossocial; a organicidade destes planos nos conduz à necessária conjugação de seus elementos constituintes - o político, o econômico, o sociológico, o afetivo, o mitológico, o subjetivo... -, que mantêm contínua ligação, interação e interdependência entre si, entre partes e todo, todo e partes.

A prática profissional é complexa. Essa complexidade é política, organizativa, subjetiva, interventiva. Abarca dificuldades, limites e o fato de que certas situações, contextos, circunstâncias, realidades não são confortáveis, conformáveis, domáveis, como geralmente gostaríamos que fossem.

A compreensão de que a prática profissional do assistente social é complexa implica aceitar colocar-se diante de desafios que não são simples de serem enfrentados, cuja ação vai requerer escolhas, diferentes conhecimentos - inclusive um pólo lógico e um pólo empírico, no dizer de Morin (1991), decisões: "pode-se dizer que há complexidade onde quer que se produza um emaranhamento de ações, de interações, de retroações (idem, p.77). Ao mesmo tempo, confrontamo-nos com proposições conflitantes, diferentes, que em princípio se excluem, portanto complexas, mas que precisam ser conjugadas. A complexidade está onde não se pode vencer uma contradição. Complexidade é "(...) um tecido (...) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados (...)" e, deste ponto de vista, envolve a relação entre uno e múltiplo; é ainda, "o tecido de acontecimentos, ações interações, retroações, determinações, acasos, que constituem o nosso mundo fenomenal" e, deste ponto de vista, envolve a relação com a incerteza, a desordem, o acaso. ( idem, p.17-18).

2. Outro aspecto essencial desta proposta é a idéia de que o homem é unidual, ou seja, biológico e cultural e que em seu processo de hominização desenvolveu uma cognição cultural que o distinguiu dos outros animais, amenizando suas características essencialmente biológicas e da ordem dos instintos. Além do homem corresponder à lógica do ser vivo (biológico), esta compreensão implica concebê-lo retornado à natureza sem apartá-lo de sua cultura, de sua mundaneidade (pertencimento, enraizamento), de sua humanidade. É ele sujeito sapiens-demens mergulhado numa rede de interações e retroações, produto e produtor da história, da civilização; sua autonomia se consolida em seu processo auto-organizador que resulta e depende das conjugações biológicas, antropológicas, econômicas, psicológicas, sociais. Trata-se da organização em que se extrai do mundo exterior qualidades próprias, necessárias e complementares (identidade e diferença, inclusão e exclusão) ao mundo interior. Assim, a auto-organização é auto-eco-organização e a autoreferência é auto-exo-referência, ou seja, para referir-se a si mesmo é necessário referir-se ao mundo exterior.

3. A complexidade da prática requer um pensamento e uma postura transdisciplinares: que realizem e potencializem a idéia de caminhar, de ultrapassar as fronteiras das disciplinas e de ousar transitar entre elas; que não limite a compreensão de homem a uma compreensão do homem, acolhendo-o em suas dimensões política, histórica, psicológica, emocional, econômica, afetiva, etc.. A idéia de não separar deve significar polimorfia e não a atraente e muitas vezes falseante perspectiva de unidade.

A transdisciplinaridade abarca uma compreensão do movimento de intervenção que não se prende a um eixo ideológico unificador. Ela é pluricultural (diálogo entre as diferentes culturas); transcultural (aberta àquilo que atravessa e ultrapassa as culturas - identidade, diferença, relação); transpolítica ( no sentido da religação entre os modos de ser, os modos de produzir e reproduzir - sem que um predomine sobre outro mas de maneira a reafirmar as convicções e condições de humanização do homem).

4. Consideramos a intervenção profissional a expressão da prática social do assistente social que se materializa nos modos de realizar uma interposição consciente na realidade social; expõe as formas de conhecer, interferir, pensar, agir. Intervenção, do latim "intervenire", significa ser ou estar presente; implica um movimento de ações concretas, orientadas para alguma transformação social, que requer a presença do profissional. Como dimensão privilegiada da prática profissional, objetiva-se em uma proposta de ação que articula pensamento e discurso. O constructo "pensamento e ação" não é unidade mas relação. A ação envolve decisão e estratégia. A estratégia não se coloca aqui como mera realização de decisões previamente planejadas, em consonância com contextos definidos tendo em vista a consecução simples de objetivos. Compreendemos estratégia a partir de uma decisão inicial, cuja concretização contudo, contempla a possibilidade de imprevistos, acasos, informações e conhecimentos que se constroem no decurso do processo de intervenção. Trata-se de lutar contra o acaso buscando informações para diluir incertezas e ao mesmo tempo, aproveitar-se dele (Morin,1990), utilizando-se as fragilidades que a situação apresentar, desconstruindo e recriando novos rumos para a ação.

5. Complexa, a prática profissional supõe uma racionalidade aberta (dizia um físico, nosso cérebro é um órgão democrático, quando recebe um estímulo provoca logo uma assembléia de neurônios) que comporta a autocrítica e a dúvida, a incerteza cognitiva e a incerteza da ação; ela se opõe a uma "inteligência cega", ou seja, correlata a um pensamento simplificador, unificador, incapaz de conceber a conjunção entre uno e múltiplo, o elo entre observador e observado, a interação entre micro e macrossocial, a atração relacional entre ordem e desordem.

6. O conhecimento e a prática, na perspectiva da complexidade se assentam em princípios complexos de inteligibilidade, que ao mesmo tempo são interdependentes e complementares, e que passamos a enunciar:

- dialógico - a conjugação e associação de instâncias contraditórias, antagônicas relacionadas a determinado fenômeno;

- recursivo - a simultaneidade entre produto e produtor;

- hologramático - a compreensão de que o todo está inscrito na parte assim como a parte está no todo (patrimônio genético/cultural); "(...) a sociedade está presente em cada indivíduo, enquanto todo, através da linguagem, sua cultura, suas normas." (Morin, 2000,p.94).

Assim, na perspectiva da complexidade a aprendizagem é amplificada, reconstruída em retroativas análises e críticas criativas, fundamentada em orientações prospectivas de clara sustentação capazes de contribuir para a produção de conhecimentos e para a formação de mentalidades melhor preparadas para o desempenho profissional. Mas o conhecimento somente será libertador quando apreendermos a liberar nosso espírito para que se lance ao exercício de conhecer e compreender, cultivando a si mesmo, desenvolvendo o interesse pelos outros, tendo por horizonte uma nova praxis, uma nova qualidade relacional, uma nova ética. O encantamento das idéias reside na necessidade de pô-las em dúvida, desconfiar de sua constância... todo conhecimento precisa viver na temperatura de sua própria destruição! (La température de sa propre destruction est la température de sa propre régénération - Hadj Garùm O’Rin - citação de Edgar Morin).


[1]Texto de palestra proferida na Semana do Serviço Social, PUC-Curitiba, 1999.

[2]Professora Doutora, Titular do Programa de Estudos Pós-Graduados em Serviço Social da PUC/SP e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Ensino e Questões Metodológicas em Serviço Social.


Para citar este artigo no formato ABNT:

RODRIGUES, M. L. Complexidade e prática no Serviço Social: sentido e validade. NEMESS Complex. Texto de palestra proferida na Semana do Serviço Social, PUC/Curitiba. Curitiba, 1999. Disponível em:<http://www.nemesscomplex.com.br/conteudos?id=15/complexidade_e_pratica_no_servico_social:_sentido_e_validade>. Acesso em: dd mmm. aaaa.


Bibliografia:

CASTORIADIS, C. Feito e a Ser Feito: As Encruzilhadas do Labirinto V. Rio de Janeiro: DP&A Ed., 1999.MORIN, E. Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa: Publicações Instituto Piaget, 1991. (Coleção Epistemologia e Sociedade).______. Meus Demônios. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.______. O Método 4: As Ideias. Porto Alegre: Sulina, 1998.______. A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.NICOLESCU, B. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999.POPPER, K.; LORENZ, K. O futuro está aberto. 2. ed. Lisboa: Fragmentos, 1990.



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