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Raízes marxistas no pensamento de Edgar Morin

  • Autor: Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues

Muitas vezes ouvimos dizer que a vida é mais sutil que a teoria, mas nem sempre interiorizamos essa compreensão. Permitam-me introduzir o tema com uma breve evocação... 

Sempre muito avessa a dogmatismos de toda ordem, procurei desde cedo interpor-me a esta tendência. Entretanto, esta inclinação não me pouparia dos sofrimentos provocados pelas ideias/verdades que viriam a dominar alguns meios intelectuais e acadêmicos sob o pretexto de adotarem, irredutivelmente, como única teoria crítica, a marxista.

Estudiosa de Edgar Morin desde 1982, foi nos demônios da contradição entre verdades do coração e verdades da razão, que encontrei ressonância para meu sentimento e pensamento sincréticos, que procuravam conjugar as tendências crítico-humanista, político-libertária e místico-revolucionária. Impressionada com a força de um certo marxismo ideologizante coloquei-me, desde o início, na contramão desta orientação, resistindo ao que se tornara hegemônico, disposta ao desafio de uma espécie de emancipação contra-hegemônica, sem por isto me furtar ao conhecimento e ao reconhecimento da importância incontornável do marxismo na formação do pensamento moderno.

Foi neste clima que, em 1999, descobriria na biblioteca do Centre D´Études Transdisciplinaire de Paris [1], um pequeno texto que trazia por título "Marxisme et Sociologie”, de Edgar Morin. Nele, o autor problematizava os diferentes marxismos (leninista, stalinista, trotskistas, entre outros) que "... fazem análises diferentes da realidade, com conclusões políticas frequentemente divergentes” (MORIN, 2002, p.73), com a preocupação de demolir a propensão de vê-lo (o marxismo) como instituição, o que, certamente, seria incoerente com esta teoria. Questionava Morin, então, a forte petrificação do marxismo em relação a Marx (idem, p.74). "Quando se considera o desenvolvimento das ciências a partir de 1900, constata-se que apareceram fora do marxismo concepções que, sem se dizerem dialéticas, estabeleciam a dialética no interior de seu sistema, enquanto que, paralelamente, via-se a aptidão ao pensamento dialético enrijecer-se nos marxistas oficiais (idem, p.81-82). (...) Se existe uma coisa de que Marx sempre esteve consciente foi da pobreza da ideologia, do nosso modo de pensar o real em relação ao próprio real. Há ortodoxia imobilista em pretender que todas as superações se deterioram e são sempre um retrocesso (idem, p.84)".

Muito cedo Marx intuiu os malefícios da petrificação dos conhecimentos, da retórica sem testemunho, do fetichismo que aprisionaram os pensamentos e as teorias de vanguarda nas mais diversificadas ações reguladoras e posturas reacionárias. Uma passagem de Edmund Wilson (1987), quando nos remete à reflexão do jovem Marx a respeito da escolha de uma profissão, sintetiza esta ideia: "(...) deve-se ter certeza de não se estar colocando na posição de mero instrumento servil nas mãos de outrem: o indivíduo deve manter sua independência em sua própria esfera, e certificar-se de que está servindo à humanidade ... caso contrário, ainda que venha a se tornar famoso como erudito ou poeta, não será jamais um grande homem. Nunca nos realizamos verdadeiramente a menos que estejamos trabalhando pelo bem de nossos semelhantes: neste caso, não só nosso fardo não será pesado demais, como também nossas satisfações não serão alegrias egoístas. (p.109)".

Comenta Wilson que para o jovem Marx, "(...) a ditadura das relações sociais já era vista como um empecilho para a auto-realização individual”, o que fez pressupor que a determinação das condições culturais e humanas atuavam diretamente sobre possibilidades, limites e discriminações ao acesso a diferentes profissões ou especialidades.

A leitura daquele texto e as consequentes reflexões tiveram inesperadas repercussões. Em certa ocasião, caminhando e conversando com Morin numa das ruas da cidade de São Paulo, referi-me a este artigo, comentando o modo como o marxismo viria a degradar-se através dos próprios intelectuais de esquerda, permutando a essência de sua estrutura crítica em esclerose dos sistemas marxistas e dispositivos de manutenção de poder. Tentava obter da experiência de Morin e com ele apreender, os argumentos que poderiam explicar as diferentes e estranhas formas democráticas de dependência que algumas profissões desenvolviam e conseguiam manter em seu interior. Animado com os desdobramentos daquela discussão, Morin propôs enviar-me um material (dos anos 60) publicado em diferentes livros e ou revistas, para que traduzido e reorganizado a meu critério, pudesse resultar num livro que traria à luz seu modo de pensar o marxismo.

Não sem um certo receio e espanto, comecei então, a exercitar a honrosa e desafiadora incumbência de organizar e traduzir os textos que resultariam no livro Em Busca dos Fundamentos Perdidos – textos sobre o marxismo, de Edgar Morin[2].

Raízes[3]

Edgar (Nahum)[4] Morin nutria, desde muito pequeno, grande admiração por Napoleão. Com seu pai Vidal Nahum, costumava cantar pequenas músicas que enalteciam as conquistas e vitórias do valente imperador. Aos 8 anos perde a mãe Luna (1931) quando ela tinha 30 anos, fato que marca inexoravelmente sua vida. Em uma primeira carta ao pai de Edgar, Luna manifesta seu temor diante do irredutível: "A morte, esse monstro sem lei nem freio” (MORIN, 2006, p.189). Uma relação conflituosa tem início entre Edgar e Vidal porque, pensando poupá-lo, não lhe contara sobre a morte da mãe. Embora sempre muito afetivo com o filho Vidal verá esse mal-estar se diluir apenas com o tempo.

Morin politiza-se no pátio do liceu em que estudou, nas ruas de Paris, nos encontros com amigos; não foi ou é só um marxista; suas raízes de formação intelectual são abrangentes, construídas por uma caminhada autodidata, que transitou entre romances, filmes e cançonetas até a cultura mais refinada encontrada na literatura, na música erudita, na política, na filosofia. Possuído pelo desejo sempre grande de conhecer e desenvolver sua capacidade de pensamento crítico, marcou de modo irredutível sua trajetória: a busca pela compreensão do homem e de sua condição humana.

Desde os 14 anos (1935/36) fascina-se por escritores como Tolstoi (Ressurreição) e Dostoievski (Crime e Castigo, Possuídos e Irmãos Karamazov). Malraux[5], Proust, Montaigne, Rousseau viriam a seguir, além de Voltaire e Diderot. A necessidade de uma cultura em ciência social irá alcançá-lo através da política. Conta-nos em Meus Demônios: "A política invadiu nossa turma de quinta série, em fevereiro de 1934. Tínhamos treze anos. Havia discussões no pátio do recreio, onde os alunos refletiam e transmitiam as reações de seus pais. Alguns usavam insígnias na lapela, a foice e o martelo dos comunistas, as três flechas dos socialistas, a flor-de-lis dos monarquistas (2000, p.26)".

Seu primeiro ato militante ocorre em 1937 indo à sede do SIA (Solidariedade Internacional Anarquista). Em 1938, a  Frente Popular e a Guerra Civil Espanhola impelem Edgar a se reconhecer politicamente. Passa a ler jornais de diversas tendências, engaja-se num ato militante em solidariedade aos anarquistas catalães e participa de seu primeiro comício político trotskista, em Valmy.

Seu professor de Filosofia, o comunista Maublanc, o introduz ao marxismo. Também através de seu amigo Georges Delboy, convence-se de que o marxismo seria a verdadeira fonte do conhecimento das realidades humanas e que, através dele, seria possível fundar a esperança de um mundo melhor (MORIN, 2000, p.28).

Em setembro de 1939, Vidal Nahum é convocado para a 2ª guerra mundial e Edgar vai morar com Henriette, sua tia por parte de pai.  Mais livre, começa, a partir de então, a dedicar seu tempo a atividades assistenciais, como secretário da Associação dos Estudantes Refugiados. Trava contatos com Clara Malraux - que se surpreende com a sensibilidade e a inteligência do jovem de apenas 19 anos. Freqüenta a Biblioteca Municipal, onde lê com avidez tudo o que encontra sobre sociologia, história, literatura contemporânea, Marx e autores marxistas como Daniel Guérin e Henri Lefebvre (1940/41).

Interessa-se cada vez mais pela União Soviética, centro das grandes discussões revolucionárias da época. Toma contato com as obras de Hegel, Trotski, Lênin, Heidegger, entre outros. Participa de ações de grafitagem e da distribuição de panfletos. Impelido pelo amigo Jacques-Francis Rolland, Edgar decide, finalmente, filiar-se ao Partido Comunista, no final de 1941.

Os grandes movimentos da época conduziram-no à história, à sociologia e fortaleceram em Morin, suas convicções marxistas. Convivia com intelectuais críticos e atuantes, tais como Marguerite Duras, Merleau-Ponty, George Bataille, Robert Antelme. Aprendeu a assimilar suas contradições como fundamentos de sua própria existência. "Aprendi com eles uma cultura da existência” (idem, p.32).

Entretanto, na medida em que se iniciava a inversão do sentido revolucionário, que a força do dogmatismo corrompia o Partido e que se traçavam os rumos decorrentes da instauração do stalinismo, começa a ser cevada em Morin, uma revolta moral. "Foi-me necessário reconhecer que meu sistema era contraditório em si mesmo e que esta contradição estava aquém de qualquer lógica, inclusive a dialética. Era-me necessário reconhecer que minha fé estava baseada naquilo que suscitava em mim uma dúvida cada vez mais radical, que minha esperança estava naquilo que me fazia desesperar. (MORIN, 2000, p.58)".

Começa a observar sua própria vida e suas próprias ideias, como viria a afirmar em Meus Demônios e outras obras. Foi assim, então, que em 1951, por dissidência cultural e pelas críticas que empreende contra o stalinismo (inclusive por causa de um artigo que publica no jornal France Observateur), Morin deixa o Partido terrivelmente contrariado com os desdobramentos das ações da esquerda.

Mas não rompe com o marxismo; vê nele não só a história humana pela luta de classes e pelo desenvolvimento das forças produtivas, como também, a semente de uma ciência – ou teoria – multidimensional que permitiria articular, umas às outras, as ciências naturais e as ciências humanas – um marxismo aberto e integrador (MORIN, 2000, p.28).

 

Marxismo presente

É possível constatar que toda a obra de Edgar Morin é atravessada pela teoria de Marx; mas é também fortemente constatável sua independência de pensamento: "Enquanto os marxismos oficiais eram exclusivos e excludentes, meu marxismo foi e continuou integrador, e não me desviou de nenhuma escola de pensamento” (MORIN, 2000, p.29). Vai a diversas e diferentes disciplinas – geografia humana, psicanálise, história, etnografia, ciências da mitologia, entre outras – construindo seu saber de modo transdisciplinar. "Desenvolvo, assim, meu saber e o integro em um marxismo que se alarga até que não seja nada mais que uma capa, em que se opera a gestação inconsciente de minha concepção de complexidade, que o fará surgir e tornará Karl Marx limitado” (idem, p.33). "Meu marxismo foi estimulado no interior pela dialética hegeliana. Minha aceitação do risco de morte foi filosoficamente assumida pela ideia hegelianana de que o pensamento deve enfrentar, explícita e corajosamente, a morte (idem, p.31). "Sem Hegel eu não teria me encontrado, reconhecido. ... O pró e o contra não devem excluir-se em um débil talvez, mas combater-se com igual ardor. Tudo isso encontrou sua saída magnificamente na dialética de Hegel, que integrava, ordenava e justificava o meu modo de pensamento selvagem e permitia a um terceiro triunfante, nascido de sua união, suplantar os contrários. Captando o espírito hegeliano em proveito da práxis, Marx permite-me suplantar minhas contradições existenciais; o engajamento militante surgiu então como a solução simultânea e recíproca aos meus problemas intelectuais e reais (MORIN, 2003, p.22)".

Via na teoria de Marx o fundamento antropológico, tanto em seu limite como em sua possibilidade. No limite porque, embora plena de uma concepção de homem, tratou esse mesmo homem desprovido de seu enigma, de seu pertencimento cósmico, uma vez que concebido como matéria e matéria prima para produção do homem pelo homem; portanto, uma concepção de homem limitada ao homem produtor que pouco considera o homem lúdico, mitológico, imaginário. Não integra ao homem as questões psicoafetivas (como fará Freud), os problemas da pessoa, da relação consigo mesmo. "Diferentemente de quase todos os antropólogos selvagens, de Montaigne a Rousseau, Marx não se contempla, não se desdobra. Hegel e Marx jamais riram de si mesmos. É a psique que falta em Marx. Ele é o porta-voz do poderoso ‘animus’ (princípio masculino na psique humana, na psicologia junguiana) do homem, não de sua anima (alma – princípio feminino na teoria de Jung). Marx mostra o rosto prometéico do ferreiro, não o sorriso de Gioconda. O homem titã de Marx sonha apenas em conquistar o fogo, em produzir, em vencer deuses, em enunciar o homem-deus. O homem de Pascal, caótico, contraditório, perdido e triunfante na faixa média, perpassando pelos infinitos, é mais verdadeiro. (2003, p.67/68).

Morin diz que Marx precisa ser superado como doutrina unitária e dominante, isto é, precisa ser "integrado na constelação dos pensadores que podem iluminar nossa reflexão, (...) sua concepção de capitalismo deve ser integrada no complexo dos desenvolvimentos técnicos, sociológicos, democráticos, ideológicos da história moderna. (...) abandonar toda lei da história, toda crença providencial no progresso (...). O que resta e restará são as aspirações ao mesmo tempo libertárias e fraternas, as aspirações à realização humana e a uma sociedade melhor (...). (2003, p.99).

O autor demonstra que o socialismo marxista dispunha de um messias – o proletariado, que foi substituído pelo partido onisciente do trabalhador. A arte do exercício político consiste em manter-se a serviço do ser humano, disponível para uma política de civilização, ou seja , uma política que permita  fraternizar o corpo social, suprimir a barbárie da exploração do homem pelo homem, prolongar um pensamento planetário. Assim, convoca-nos Edgar Morin a "resistir, a conservar, a revolucionar: civilizar a terra, solidarizar, confederar a humanidade respeitando as culturas e as pátrias e transformar a espécie humana em humanidade” (2003, p.126). Estas seriam, para ele, as fontes da ambição socialista original. Desdobra-se daí, talvez, sua cosmovisão teórica do marxismo à "complexidade”.


Notas:


[1]  Vinculado à École des Hautes Études em Sciences Sociales (Paris/França), é hoje denominado Centre Transdisciplinaire Edgar Morin.
[2]  Importante fazer menção a especial parceria da colega, professora e filósofa  Salma Tannus Muchail, tradutora excepcional e estudiosa de Michel Foucault, que  garantiu maior qualidade à tradução de todo o texto.
[3] Muitas informações aqui arroladas encontram-se na bibliografia de Edgar Morin, site: www.edgarmorin.sescsp.org.br [4] "Nahum é uma palavra hebraica que, como sua variante ‘ Nehama’, significa ‘consolação’. Essa palavra é também um prenome; entre os sefarditas (judeos-espanhois nascidos em Salonica), tornou-se sobrenome” (MORIN, 2006, p. 45). Morin nos conta que Nahum era um profeta menor, mas que seu pai, Vidal, gostava de dizer-se dele descendente.
[5] Engajado ao longo da vida em todas as lutas pela liberdade - contra o colonialismo francês na Indochina, o fascismo na Espanha, o nazismo alemão - escritor que ataca a miséria dos homens e exalta sua grandeza, André Malraux (1901-1976) foi também um esteta e um crítico de arte, que revelou ao público francês a riqueza das civilizações extra-européias. informações obtidas no site: www.ambafrance.org.br

Bibliografia:

Edmund, Wilson. Rumo à Estação Finlândia – escritores e atores da história. Trad. Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Morin, Edgar. Meus Demônios. Trad. Leneide Duarte e Clarisse Meireles. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

______.  Em Busca dos Fundamentos Perdidos – textos sobre o marxismo. Maria Lucia Rodrigues e Edgard de Assis Carvalho (Orgs.). Trad. Salma Tannus Muchail e Maria Lucia Rodrigues. Porto Alegre: Sulina, 2002.

______. X da Questão – o sujeito à flor da pele. Trad. Fátima Murad e Fernanda Murad Machado. São Paulo: Artmed Editora, 2003.

______. Um ponto no holograma - A história de Vidal, meu pai. Trad. Lara Christina de Malimpensa. São Paulo: Ed. Girafa, 2006.



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