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Polifônicas Ideias: por uma Ciência aberta

  • Autor: Maria da Conceição de Almeida; Margarida Knobb; Angela Maria de Almeida (Orgs.).

O livro composto por breves artigos discute o papel da ciência, e defende que para que ela possa se tornar um discurso pertinente sobre o mundo, precisa ultrapassar os muros dos laboratórios e gabinetes e se fazer entender, comunicar. Afirma que a justeza de um pensamento não se valida por suas próprias premissas, e que todo o pensamento tem como contraponto, conexão, desmembramento e alimento a ação que lhe dá sentido e o fenômeno do qual se fala.

Artigo - Os bons medos 

Autora: Profa. Dra. Maria Lucia Rodrigues.

Que medos são estes? Há os bons e há os maus? Às vezes temos mais medo daqueles que não têm medo – como podem não tê-lo? Quais nossas mais banais inseguranças? O que nos assusta, nos afronta, nos provoca certo gosto de morte? São tantos os medos que torna-se difícil identificá-los: medo da adversidade, da depressão, medo do homem, da loucura, da traição, medo de não ser aceito, medo da pobreza, da riqueza, da injustiça, da exclusão, medo do aniquilamento, medos das prisões internas ou externas. Medos paradoxais, os medos sim e os medos não. Medos que nos instigam à servidão, como nos lembra Chauí,

É então, quem sabe, nesse ‘medo que esteriliza os abraços’ que descobrimos não termos medo disto ou daquilo, de algo ou de alguém, já nem mesmo medo de nossa própria sombra, somente medo do medonho. Susto, espanto, pavor. Angústia, medo metafísico sem objeto, tudo e nada lhe servindo para consumar-se até alçar-se ao ápice: medo do medo. Juntamente com o ódio, o medo, escreveu Espinosa, é a mais triste das paixões tristes, caminho de toda servidão. Quem o sentiu, sabe[i].

Estar atento a estas indagações e aos sentimentos que se desdobram destas emoções, localizar com franqueza nossas dificuldades – que transitam entre o pessoal e o social – e buscar esclarecê-las, reconhecer os próprios limites e saber pô-los a nu em reflexões partilhadas ainda que em meio a opiniões divergentes, continua sendo um exercício pouco comum e delicado. Falar deste tema é pouco comum.

Em dias difíceis como os de hoje, em que impera a falta de vontade para quase tudo que diga respeito à vida e à emancipação humana, parece frequente certo esgotamento de ideias e de utopias, um dar de ombros às participações e, em decorrência, o esmorecimento de nossa presença nas decisões e no agir.

Sairemos deste desconforto quando reassumirmos com mais generosidade e acolhimento as dificuldades e os erros que vivenciamos, pondo-nos em curso para melhor nos conhecermos, re-orientando nossas atividades e participação nas diferentes instâncias da vida; se o conhecimento  reflete o mundo externo e interno do homem, reflete do mesmo modo seus erros, acertos, ilusões; é necessário contar com isto sem intimidações, sem desatrelar o mundo do afeto do mundo do intelecto.

A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro. Poder-se-ia crer na possibilidade de eliminar o risco de erro, recalcando toda a afetividade. De fato, o sentimento de raiva, o amor e a amizade podem nos cegar. Mas é preciso dizer que (...) o desenvolvimento da inteligência é inseparável do mundo da afetividade, isto é, da curiosidade, da paixão, que, por sua vez, são a mola da pesquisa filosófica ou científica. A afetividade pode asfixiar o conhecimento, mas pode também fortalecê-lo[ii].

A consciência desta condição constitui uma dimensão do aprendizado sobre o sentido de homo sapiens/demens, de sua unidade e sua diversidade genética e genérica: fazemos parte da espécie humana mas somos únicos, somos individuais mas expoenciamos um coletivo social.  Não somos só racionalidade, bondade, sabedoria, magia, amor, trabalho;  somos também loucura, consumo, debilidade, maldade... A moeda inteira em seus dois ângulos.

Mas, e o que são emoções? Difícil conceituar; qualquer aspecto que se queira acolher (na perspectiva da psicologia, da antropologia, da sociologia, etc.) será insuficiente para corresponder à pluralidade de momentos e situações que exercitamos na vida. Emoção pode ser considerada polissemia e pluridimensionalidade de sentimentos que percorre o mundo dos afetos e desafetos, o mundo do amor e do desamor, do conhecimento e do desconhecimento.

A separação entre o emocional e o racional, simbolizada respectivamente pelo coração e pela cabeça, provocou confusões e cerceamentos aos processos de emancipação e autonomia humanas. A inter-relação entre o emocional e o racional é responsável pela mediação entre os conhecimentos e os modos como nos orientamos e agimos na vida. Quer dizer, entre o pensar, o sentir e o agir não pode haver hierarquização ou supremacia; a lógica recursiva tem aqui sua máxima: não pode haver pensamento sem sentimento e, sem ambos não há ação consciente.  Apesar dos conflitos constantes, os sujeitos se constroem nesta correlação e através dela buscam a plenitude, o livre pensar, a livre expressão, engajando-se e sentindo-se participantes na construção de sua cultura, de sua sociedade.

Medos, inseguranças, incertezas espelham, de toda sorte, a intrínseca relação entre o sujeito que conhece e o fenômeno que procura compreender, investigar. A esperança e o anseio pela melhor qualidade das relações interpessoais e sociais, o desejo de um futuro mais competente e humano dependem ainda do modo como lidamos com os conhecimentos e da maneira como desenvolvemos nossas convivências. É possível que bons medos correspondam a boas intuições. E por que não?

 



Notas

[i] Cf. Marilena Chauí, Sobre o Medo in  Os Sentidos da Paixão, São Paulo, Companhia das Letras, 1987, p.39.

[ii] Edgar Morin, A Cabeça Bem-Feita, Trad. Eloá Jacobina, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, p.51.


Para citar este artigo no formato ABNT:

RODRIGUES, M. L. Os bons medos. In: Polifônicas ideias: por uma ciência aberta. ALMEIDA, M. da C. de; KNOBB, M; ALMEIDA, A. M. de (Orgs.). Porto Alegre: Sulina, 2003. p.167-169. Disponível em: <http://www.nemesscomplex.com.br/conteudos?id=24/polifonicas_ideias>. Acesso em: dd mmm. aaaa.

Bibliografia:



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